terça-feira, 6 de outubro de 2009

Verdade sobre o Futuro

Ele era zelador, faxineiro, síndico, jardineiro e único morador da ilha. Suas manhãs eram curtas e suas tardes intermináveis. Pela manhã, limpava as folhas secas, plantava sementes, colhia bananas, vistoriava a segurança. Dava multas aos infratores, cobrava o aluguel e pagava o que devia. Construía casas na copa das árvores e as colocava a venda. Na parte da tarde, fazia caminhadas com o pé na areia, nadava com as tartarugas e tomava chá da tarde observando as ondas estourarem na pedra furada. O pôr-do-sol parecia durar horas, sua parte preferida era ouvir o barulho que o sol fazia ao mergulhar no mar. E quando o escuro da noite tomava conta da ilha, ele ia dormir, mas antes, sempre pedia para que a lua fosse boa e deixasse o sol voltar pela manhã.

A espera pelo vigésimo terceiro dia do nono mês do ano era uma tortura. Ele não conseguia compreender como uma visita que quase não aparecia poderia fazer tanta falta para um homem, para uma ilha.

Os dias que antecediam a visita eram dias de preparação, tudo tinha que estar perfeito para o momento que ela chegasse. As árvores já estavam prontas para florescer, os dias contavam os minutos para se tornarem mais longos e as noites não se importavam em diminuir.

Tudo o que ele queria, era aproveitar aqueles raros momentos com as cores de sua visita, o amarelo, o roxo e o cor-de-rosa. Ah! Como essas cores lhe faziam falta.

Mesmo quando ela tinha que partir, não se esquecia de providenciar dias mais longos e correntes quentes. Quanta generosidade!

Tudo estava preparado, ele estava pronto, ansioso e apreensivo, naquele ano ela não havia dado nenhum sinal até agora. No primeiro dia ela não veio, a chuva veio avisar. No segundo dia ela não apareceu, devia ter se perdido em algum lugar. Depois de uma semana ele descobriu a verdade: Ela não viria, entrou num submarino amarelo e foi para outro lugar.

A vida continuou, é claro. Os dias agora eram desregulados, ou muito quente ou muito frio. Quando a seca chegou não sobrou nenhum verde e quando a chuva voltou deixou a ilha imersa. E ele, o homem, o zelador, jardineiro e único morador da ilha, continuou trabalhando, esperando e acreditando que no próximo ano ela mudaria de ideia e voltaria.



E você esta disposto a esperar?


>Conto do Realismo Fantástico.
por: Maite Lorente

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